Segunda-feira, Novembro 23, 2009
hoje é um dia dos silêncios
e eu estou a falar-te
porque sei que não ouves
e então sou livre
eu posso dizer-te: vai-te foder
e é o silêncio a bater-me no vai-te foder vai-te foder
o ecoecoeco.
Eu posso arriscar e dizer-te: amo-te te te te
e tu não poderás perguntar significa amo-te
porque não te interessam metafísicas
e eu respeito
porque tu existes para calar necessidades.
Então eu hoje preciso que me digas
que tenho letras nos lábios.
Terça-feira, Novembro 17, 2009
enquanto pensas que talvez não seja alto
o suficiente
que te salvarão as pernas
ou o fígado
e os teus pais que desconhecem os direitos humanos
hão-de enfiar o teu estomâgo pela boca abaixo
de um triste cancerígeno que morria não fosses tu.
Então valem-te agora as horas de física
com os desenhos nas laterais
a pedir aos olhos que não cerrem
porque eventualmente colheremos os frutos
e eles estavam podres
como está essa gente
que em dias de sol sai à rua
com pele de frango a aguentar o frio
para mostrar o corpo.
Não vivêssemos nós num país de putas
e talvez os tecidos valessem mais.
Aos sessenta anos tudo é economia
então o prédio há-de ser alto
não vá alguém apanhar a unha do pé
e usá-la para brincar.
Quando morrer hei-de levar tudo
e tu, se quiseres, podes vir comigo.
Quarta-feira, Novembro 11, 2009
não quero que me ardas na pele.
as tuas palavras são um álcool incandescente
a descoser-me as goelas.
as pontes são o meu olho rasgado
pelo meu gato
se tu existisses o meu olho rasgado
era o meu corpo inteiro
e eu não saberia como existir sem o corpo
mas tu não existes
então eu sei que aquele olho rasgado
é apenas um olho que podia estar ainda mais rasgado
porque isto ainda foi pouco.
E ainda foi pouco
porque não é o suficiente para.
enfim.
Terça-feira, Novembro 10, 2009
quero que me ames mesmo quando eu apresentar incontinência urinária. E quero que te rias das minhas pernas molhadas no meio da rua quando me relatares a piada que o Joaquim contou ontem na hora do almoço sobre carros e mulheres, futebol e homossexuais, qualquer coisa entre tu e eu, que combina, entre pernas molhadas e o teu riso a curar-me das vergonhas imensas que são as pessoas a passaram a pensar que eu estou velha nos meus trinta anos e a doença a apoderar-se do meu corpo e tu a dizeres que eu nunca fui tão bonita e eu penso que tu sabes que eu vou morrer e que me queres feliz e por isso são mansas as tuas frases e o teu riso se agita como o vento nos chapéus de sol. Tu sabes que eu vou morrer e eu sei também. E não tem mal, eu gosto que finjas que eu estou bonita, e gosto que te rias da minha desgraça porque de outra forma serias apenas um homem de trinta anos condenado a uma velha que se mija pelas pernas abaixo sempre que mexe o abdómen e isso era muito triste.
